Palestrante Confirmada
Zeny Duarte
Universidade Federal da Bahia / Universidade do Porto · Portugal
Médicas-cultural: gênero, memória e justiça cognitiva no patrimônio científico-cultural em saúde
entre
Brasil e Portugal
Apresentação do conceito Médicas-cultural como um framework analítico de natureza sociofilosófica e
epistemológica para a compreensão do patrimônio científico e cultural em saúde, a partir de uma
abordagem centrada no gênero, na memória e na interculturalidade entre Brasil e Portugal. O enfoque
desloca a narrativa tradicional da história da Medicina, por longo tempo predominantemente masculina
e
eurocentrada, para evidenciar as trajetórias de médicas brasileiras e portuguesas como produtoras de
conhecimento, cultura e memória, reconhecendo sua agência na constituição dos saberes em saúde.
Partindo
da noção de conhecimento situado, conforme proposta por Donna Haraway, e das críticas às estruturas
de
poder na produção científica desenvolvidas por Sandra Harding e María Lugones, a reflexão compreende
a
ciência como prática atravessada por relações de gênero, colonialidade e assimetrias
epistemológicas.
Nesse sentido, incorpora também contribuições de Isabelle Stengers, Vinciane Despret e Oyèrónkẹ́
Oyěwùmí, em diálogo com Boaventura de Sousa Santos, especialmente no que se refere às epistemologias
do
Sul e à justiça cognitiva. O framework Médicas-cultural permite analisar documentação, narrativas
biográficas e redes intelectuais como dispositivos de produção de memória e como espaços de disputa
simbólica, nos quais se inscrevem presenças femininas frequentemente silenciadas ou marginalizadas.
Ao
evidenciar essas trajetórias, a proposta amplia a compreensão da ciência em saúde como campo plural,
relacional e intercultural. No contexto Brasil–Portugal, destacam-se figuras como Nise da Silveira,
Zilda Arns, Bertha Lutz e Maria Renotte, bem como Adelaide Cabete, Maria de Lourdes Pintasilgo,
Amélia
Cardia e Branca Edmée Marques, entre outras, cujas trajetórias evidenciam diferentes formas de
articulação entre Medicina, cultura, educação e transformação social. Mais do que um exercício de
recuperação histórica, o conceito Médicas-cultural constitui um gesto epistemológico e político
voltado
à reconfiguração das formas de produção da memória científica em saúde. Ao articular Ciência da
Informação, Medicina, Estudos de Gênero e Filosofia, a proposta reafirma o papel da informação como
mediadora entre memória, identidade e justiça cognitiva, contribuindo para uma leitura mais plural,
crítica e intercultural do patrimônio científico-cultural em saúde.
Minibiografia
Professora Titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e docente da Educação a Distância da
SEAD/UFBA. Doutora em Letras, Literatura e Cultura pela UFBA, realizou estágio pós-doutoral em Ciência
da Informação e Plataformas Digitais na Universidade do Porto. É investigadora do CITCEM – Centro de
Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (Universidade do Porto) e líder do Grupo de
Pesquisa G-ACERVOS (CNPq), integrando também outros grupos de pesquisa no Brasil. Atua na formação de
mestres e doutores, coordena projetos de extensão nacionais e internacionais, sendo idealizadora e
coordenadora de eventos científicos, a exemplo do Colóquio Internacional A Medicina na Era da Informação
(MEDINFOR). Desenvolve pesquisas multidisciplinares nas áreas de Ciência da Informação, Saúde, Memória,
Cultura, Identidade, Patrimônio, Humanidades Digitais e Estudos de Gênero. É autora e organizadora de
livros, capítulos, artigos científicos e eventos acadêmicos, além de consultora ad hoc e promotora da
cooperação científica entre instituições brasileiras e estrangeiras. Em reconhecimento à sua trajetória
acadêmica e contribuição para a internacionalização da ciência, é homenageada com o Prêmio Internacional
Zeny Duarte de Miranda & Armando Malheiro da Silva de Excelência Científica – MEDINFOR, entre outras
honrarias